“Nossa parte de noite”, de Mariana Enriquez

“Nossa parte de noite”, Mariana Enriquez. Tradução Elisa Menezes. Intrínseca, 2021.

Depois de ler e me apaixonar pelos dois livros de contos da autora, “Os perigos de fumar na cama”, com tradução também da Elisa Menezes, e “As coisas que perdemos no fogo”, com tradução de José Geraldo Couto, confesso que bateu um certo receio: será que eu iria gostar de um romance de 542 páginas escrito por ela? Pois quando terminei a sensação era a de que eu leria mais 542 páginas desta história.

Tendo como pano de fundo os anos 80 e 90, mas também voltando aos anos 60 e 70, “Nossa parte de noite” é um livro perturbador, tenso, e que aos poucos nos envolve em um submundo de escuridão e disputas por poder. Ele começa com Juan e Gaspar, pai e filho, indo de carro de Buenos Aires até Misiones, província onde ficam as famosas Cataratas do lado argentino da fronteira e reduto dos Bradford, a rica e influente família de Rosario, mãe do menino e que havia morrido sob circunstâncias suspeitas. É uma viagem obscura, sob o peso do luto e da incerteza, pois além dos militares (A Ditadura na Argentina durou de 1976 a 1983), eles precisavam se esquivar também da família que buscava tomar o que considerava dela por direito, no caso, uma herança perturbadora, uma conexão com um poder sombrio e que os ricos em sua soberba se achavam no direito de controlar.  

“Viver na Argentina não diminuía sua importância: o dinheiro, costumavam dizer os Bradford, é um país em si mesmo” (pág. 96)

É ficção, mas é realidade. A ditadura foi real, os desaparecimentos, os sequestros, as torturas, as mortes, as valas comuns, o terror vindo dos homens, tudo é real.

“Havia muitos ecos agora. Sempre havia quando se cometia uma carnificina; o efeito era idêntico ao dos gritos em uma caverna, permaneciam até que o tempo lhes pusesse um fim. Faltava muito para esse final, e os mortos inquietos se moviam com rapidez, procurando ser vistos. The dead travel fast, pensou.” (pág. 21)

A complexidade dos personagens e de seus movimentos dentro do romance, a fluência dos narradores e a capacidade da Mariana Enriquez de despertar o horror, o terror, o asco, mudaram a minha relação com a literatura de terror e do que ela é capaz. “Mas a verdade tinha maneiras de vir à tona, de raspar a pele, de chutar a nuca” (pág. 478) e é isso que ela faz ao trazer à tona o horror que emana da própria realidade, ela rasga a pele, chuta a nuca e esfrega os monstros que nos cercam na nossa cara.

Para finalizar, não sou uma leitora de Stephen King, mas tem uma citação dele que eu gosto muito:

“Eu compreendo o horror como a emoção mais apurada, por isso vou tentar horrorizar o leitor. Mas se eu perceber que não vou conseguir horrorizá-lo, tentarei aterrorizá-lo e, se perceber, então, que não vou conseguir aterrorizá-lo, vou apelar para o terror explícito.” (Em “Dança Macabra”, com tradução de Louisa Ibañez)

E a Mariana Enriquez faz tudo isso de forma deslumbrante e daquele jeitinho argentino onde sempre cabe futebol, superstição e crise econômica.

Publicado por Bia Fonseca

Graduada em Letras-Inglês atuando na área de educação à distância e tradução. Especialista em Leitura e Produção textual com experiência na elaboração de conteúdo em português e inglês para redes sociais.

2 comentários em ““Nossa parte de noite”, de Mariana Enriquez

  1. Como você descreveu. O livro beira a realidade da época. Deve ter sido perturbador viver neste período da história, viver em tensão 24h por dia pois os ricos achavam que podiam dominar qualquer um, psicologicamente e fisicamente.

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