Diasporic e Clan são dois livros de contos da autora chinesa-singapurense Soon Ai Ling. Eles foram traduzidos, transcriados e adaptados por Yeo Wei Wei. Primeiro, Yeo Wei Wei traduziu Diasporic. Como o título já indica, a diáspora, no caso, a diáspora chinesa, funciona como uma âncora na qual o livro se finca e é ao redor dela que as histórias são construídas. Histórias de amor, de liberdade, de sacrifício e de como pessoas, famílias e gerações que deixaram a China continental se conectam com a sua terra natal, a sua ancestralidade, a sua herança étnica, histórica e cultural. Seja em Singapura, Malásia ou Hong Kong, acompanhamos as trajetórias físicas e emocionais de personagens que levaram e herdaram histórias, hábitos e arte, muita arte. Culinária Tradicional, Costura, Bordado, Tingimento em tecido, Ourivesaria e etc. Em seguida, essas histórias foram adaptadas e transcriadas em Clan.
Transcriação, também compreendida como tradução criativa, afasta-se do conceito de tradução mais tradicional pela imensa liberdade do tradutor. Há uma verdadeira reconfiguração do texto através das mãos do tradutor-recriador. E quando falamos em adaptação a coisa vai ainda mais longe, é uma nova história, muitas vezes completamente independente da primeira, exceto que ambas germinaram do mesmo mundo, como afirma a própria Yeo Wei Wei.
Foi uma experiência maravilhosa ver esses dois mundos intrinsecamente conectados em uma relação de desconstrução e reconstrução. Histórias que foram geradas pelos mesmos embriões, da culinária tradicional de Zhejiang à arte do bordado tradicional de Guangzhou, mas que apresentam diferentes vozes, diferentes pontos de vista, diferentes contextos, e que muitas vezes respondem à fatídica pergunta “e se?” E se a professora de um dos contos nutrisse um amor não correspondido por sua aprendiz?, por exemplo. Essa foi a escolha de Yeo Wei Wei ao abordar uma das histórias, a transformando por completo, dando, inclusive, uma abordagem mais feminista ao texto.
Unindo uma verdadeira aula, um estudo sobre tradução literária, ao resgate de tradições chinesas, são dois livros que indico demais, principalmente para quem gosta de tradução, de análise textual, para além, claro, da riqueza cultural. De um aprendizado ímpar.
O Original
“师傅不安地往老赵那里站,窗口的光线射在那绣版上,那孔雀儿在白香祖精心刺绣下,不但做到平、光、齐、均、和、顺、细、密的工夫,而且虚实交织,浓淡相宜。托出轮廓,使那孔雀形象更鲜明。”(《白香祖与“孔雀图”》, p. 174)
Tradução de Yeo em Diasporic
‘Master Teacher stood beside Old Zhao, feeling uneasy. The light came in through the window just then and fell upon the work on the embroidery frame. The art that Bai Xiangzu’s gifted hands had produced became apparent: there was evenness, brilliance, neatness, balance, harmony, smoothness, fineness, and tightness in all her stitches. There was absolutely nothing to fault. Most wondrously, she had managed to give depth and volume to the peacocks, which made their image even more vivid.’ (“Bai Xiangzu and Her Embroidered Peacocks”, p. 88)
Tradução livre: O Mestre ficou ao lado do Velho Zhao, sentindo-se desconfortável. A luz entrou pela janela naquele momento e incidiu sobre o trabalho no bastidor. A arte que as talentosas mãos de Bai Xiangzu produzira tornou-se evidente: havia uniformidade, brilho, precisão, equilíbrio, harmonia, suavidade, delicadeza e firmeza em todos os seus pontos. Não havia absolutamente nenhum erro a apontar. O mais surpreendente é que ela conseguiu dar profundidade e volume aos pavões, o que tornou sua imagem ainda mais vívida. (Bai Xiangzu e seu bordado de pavões)
Adaptação de Yeo em Clan
‘When there was only one fanned tail left to sew, Xiangzu got up and went to the window. She seemed to be resting her eyes, but I could see the blood on her fingers. Master Yong and Old Chao seized the opportunity to examine her work.
“Even though her stitching is unconventional, I have to say, this girl is a genius! She’s managed to make their feathers look so real, so glossy! And look, if you look at it from where I’m standing, you’ll see how wondrously she’s mixed the tones. I simply adore her choice of colours! Especially the blend she’s chosen for the breast. I don’t know how but somehow she’s created the effect of the creature’s little heart going beat-bippity-beat,” Old Chao gushed.
None of us had ever heard such a great volume of praise from him before, not unless it was about himself. Many remembered that day for this reason. Not me. I tended to her poor fingers later on and she let me kiss them.’ (“Dreaming of Madam Bai and Her Noble Peacocks”, p. 49)
Tradução livre: Quando só faltava uma cauda em leque para bordar, Xiangzu se levantou e foi até a janela. Ela parecia estar descansando os olhos, mas eu podia ver o sangue em seus dedos. Mestre Yong e Velho Chao aproveitaram a oportunidade para examinar seu trabalho.
“Mesmo que a costura dela não seja convencional, devo dizer que essa garota é um gênio! Ela conseguiu fazer com que as penas parecessem tão reais, tão brilhantes! E veja, se você olhar de onde estou, verá como ela misturou os tons de forma maravilhosa. Eu simplesmente adoro a escolha de cores dela! Com destaque para a mistura que ela escolheu para o peito. Não sei como, mas de alguma forma ela criou o efeito do coraçãozinho da criatura batendo”, disse o Velho Chao.
Nenhum de nós jamais tinha ouvido tantos elogios dele antes, a menos que fossem sobre ele mesmo. Muitos se lembraram daquele dia por esse motivo. Eu não. Mais tarde, cuidei de seus pobres dedos e ela me deixou beijá-los. (Sonhando com a Madame Bai e seus nobres pavões)
Referências:
http://www.asianbooksblog.com/2023/07/singaporean-writer-soon-ai-lings.html
CAMPOS, Haroldo de. Da transcriação poética e semiótica da operação tradutor. FALE/UFMG Belo Horizonte 2011

