“Coelho maldito”, de Bora Chung

Coelho maldito, de Bora Chung, tradução Hyo Jeong Sung. Alfaguara, 2024.

Impossível passar incólume por esta capa da Mariana Metidieri com ilustração da Ing Lee, mas talvez eu tenha (quase) passado pelo texto da Bora Chung, apesar de ter gostado muito de conhecer a autora e do livro em si.

São dez contos que transitam pela ficção científica, um deles traz androides como companheiros; pela fantasia, um dos contos me lembrou demais o The Ones Who Walk Away from Omelas, da Úrsula K Le Guin, no qual às custas da vida de uma criança uma cidade vivia próspera e feliz; pelo horror, histórias que envolvem maldições, fantasmas; por algo meio folclórico; e por uma espécie de realismo mágico, com situações para lá de insólitas vividas por alguns personagens, como um dos meus contos preferidos, Menorreia.

Nesse conto, uma mulher precisa urgentemente encontrar um pai para a criança que ela carrega no ventre. O inusitado é a forma com a qual ela engravida e a consequência caso ela não encontrasse um pai. De resto, tudo é muito rotineiro para uma “jovem solteira”, inclusive a violência com a qual ela é tratada pelos que a cercam, principalmente por aqueles que deveriam cuidar dela, como a equipe médica. A falta de informação é uma constante. Ninguém conversa, ninguém explica, ninguém avisa. O que dialogou muito com um dos contos da Mariana Enríquez em Un lugar soleado para gente sombría, ainda sem tradução para o português. Metamorfosis traz uma mulher mais velha, já indo para a menopausa, que, segundo sua ginecologista, precisa retirar o útero por causa de miomas e ela acaba, em outra fase da vida, em outro país, outro continente, passando por um desamparo muito próximo ao da personagem da Bora Chung. Por sinal, trazer mulheres mais maduras e seus problemas foi um grande destaque no novo livro da autora argentina.

Como podem perceber, houve uma troca bacana com o livro, mas eu queria que ela tivesse dado um passo adiante, pois no final das contas, apesar do asco, do nojo e do incômodo, que existem e são bem trabalhados, os contos não chegaram a me horrorizar, a me chocar. Alguns parecem que ficaram ali pelo meio do caminho entre o horror e o choque. Resumindo, não me causou esse furor todo que várias pessoas mundo afora estão sentindo. E isso é, muito provavelmente, um problema meu e das expectativas que eu tinha.

Eu esperava sensações que, por exemplo, a Mariana Enríquez, me desperta. Ou que a Sayaka Murata, na qual as coisas vão escalando e a gente vai arregalando os olhos, abrindo a boca, colocando a mão por cima enquanto pensa “Nããããão, ela não fez isso. Nããããão ela não vai por aí. Aí meu Deus, ela foi” enquanto abrimos um sorriso contido, misto de choque pela coragem e nervoso pelo total absurdo.

Mesmo assim, eu me peguei pensando: ainda que eu quisesse mais, ainda que eu quisesse que ela tivesse dado esse passo a mais, eu não consigo não bater palmas pela escolha do fantástico, do mágico, para incomodar, principalmente uma sociedade patriarcal, neoliberal e desigual, como a sul-coreana, pois é exatamente essa ferida que autora quer cutucar.  

Publicado por Bia Fonseca

Graduada em Letras-Inglês atuando na área de educação à distância e tradução. Especialista em Leitura e Produção textual com experiência na elaboração de conteúdo em português e inglês para redes sociais.

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