Atos Humanos, de Han Kang

“Atos Humanos”, Han Kang. Tradução Yi Yun Kim. Todavia, 2021.

“Por que será que cantam o Aegukga para as pessoas que foram mortas pelos soldados? Por que enrolam os caixões com a Taegukgi? Como se não fosse a nação que os tivesse assassinado.” (pág. 14)

Há alguns meses li o  “Sobre a terra somos belos por um instante”, do Ocean Vuong, escritor americano de origem vietnamita extremamente poético, e uma das passagem que marquei dizia assim: 

” A única coisa boa dos hinos nacionais é que a gente já está de pé, e portanto, pronto para correr”. (pág. 169)

Esse trecho me veio à mente enquanto eu também passava o marcador na citação retirada do livro da Han Kang e que abre essa resenha. À esses textos, eu me acrescentei como leitora, trazendo a minha história, a história dos que vieram antes de mim, a história do meu país, a história do meu povo, assim como esses autores fizeram em seus textos. Em comum, temos a violência, a dor, o luto, mas também a resistência. São coisas que carregamos com a gente, individual e coletivamente. E é sobre esse processo, de como lidamos com ele, que Han Kang se debruça em “Atos Humanos”. 

Em 1980, a Coréia do Sul vivia sob uma ditadura militar que sufocou violentamente um protesto de estudantes e população civil na cidade de Gwangju. De 18 a 27 de maio pessoas foram alvejadas e mortas pelas ruas à luz do dia, outras foram mantidas em centros de tortura enquanto corpos eram jogados em valas comuns. A quantidade de mortos até hoje é incerta diante da discrepância entre os números oficiais e não-oficiais. Foi um verdadeiro massacre pelo qual o ditador Chun Du-whan morreu aos 90 anos sem jamais ter sido punido ou sequer pedido desculpas. Uma ferida aberta, um acontecimento histórico que ao mesmo tempo está no passado, no presente e no futuro, constantemente não encerrado. 

É nesse acontecimento e também nesse sentimento de enfrentamento que Han Kang se baseia para desenvolver uma ficção, uma ficção com vozes que viveram o horror, que foram privadas de dignidade, vozes que nos conduzem menos pelo fato histórico e mais pelas sensações, pelas ausências e pelos silêncios. 

Sendo que o peso dessas vozes ficou ainda maior depois de entender como a tradutora do livro no Brasil, a professora Ji Yun Kim*, fez para mantê-las, algo que se perdeu no inglês, visto que ao invés de várias vozes há apenas um narrador onisciente. No primeiro capítulo, por exemplo, ela usa o tu como tradução para 너(neo), para causar estranhamento e demonstrar uma certa intimidade e diferença de idade entre o narrador e o menino sobre o qual o título em coreno fala, pois o original não é “Atos Humanos”, mas sim “(O) Menino vem”. Esse menino, Dongho, é o fio condutor, pois todas as outras vozes têm de uma forma ou de outra uma ligação com esse que é o personagem mais jovem. Então é através dessas vozes que o menino vai se eternizando ao longo do texto para ao final não ser mais apenas ele, mas todos. Além disso, há um cuidado em manter o não dito, espaços que conduzem toda a complexidade que as experiências vividas pelos personagens carregam, os traumas, a culpa e etc.

É um livro belíssimo e doloroso na mesma proporção. Uma forma de honrar os fantasmas dos que se foram e dos que ficaram enquanto se investiga a humanidade e a brutalidade que parece sempre nos acompanhar. Impossível não lembrar dos nossos próprios fantasmas, da nossa própria história como nação, mas com a esperança de que apesar de tudo, a gente sempre consiga ir “pro lado das flores”.

* Nas duas primeiras terças-feiras de Agosto participei de um curso de extensão pela USP com a professora e tradutora Yi Yun Kim: “O Ritmo e a Tradução de Atos Humanos de Han Kang”. A obra ganhou uma outra dimensão depois disso, pois ela utilizou estratégias que vão muito ao encontro do que eu desenvolvi no meu TCC em Letras-Inglês (“A tradução literária: o tradutor-leitor, a experiência em uma Oficina de tradução e as retraduções”) e que ao fim, é o que eu considero uma boa tradução, conferir ao leitor uma experiência o mais próxima possível da que leitor do original teve. Quando ela analisou trechos do original, em coreano, comparando com o inglês e a tradução que ela fez para o português ficou nítido o distanciamento da obra em inglês. Há aqui na edição brasileira a valorização do texto como unidade, conjunto, e não tão agarrado ao signo (significante e significado). Uma experiência de muito aprendizado não só como tradutora, mas leitora. 

Publicado por Bia Fonseca

Graduada em Letras-Inglês atuando na área de educação à distância e tradução. Especialista em Leitura e Produção textual com experiência na elaboração de conteúdo em português e inglês para redes sociais.

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