“Flores matinais colhidas ao entardecer”, Lu Xun (鲁迅). Tradução Yu Pin Fang. Editora Unicamp, 2021.
No filme “A chegada“, um dos meus favoritos, uma linguista é chamada para decifrar a língua de alienígenas recém chegados ao planeta Terra e ao fazê-lo uma nova forma de ler o mundo se abre. Estamos falando de ficção científica, claro, mas é inegável a relação, digamos, simbiótica entre a língua e a forma de pensar e agir de um povo.
Estudar chinês tem feito com que eu pense muito a respeito disso. Aprendi, por exemplo, que a ordem das frases não é tão flexível como a nossa ordem em português, a linha do tempo na qual as coisas acontecem conta demais gramaticalmente falando, e tempo é mais comprimento que quantidade.
E por que comecei falando sobre isso? Pois ” Flores matinais colhidas ao entardecer” (朝花夕拾) , além de ser uma edição bilíngue e permitir que eu ao menos cace aqui e ali caracteres, pois é o máximo que consigo fazer por enquanto, é um livro que reúne textos em prosa do autor que é considerado o pai da literatura moderna chinesa, Lu Xun (鲁迅), e entender quem nós éramos para entender quem nós somos não se aplica apenas a um nível individual. A forma como pensamos e criamos, coletivamente, inclusive, é influenciada por nossas raízes, por aqueles que vieram antes.
Lu Xun (1881-1936) defendia fervorosamente o uso do chinês vernacular, ou seja, a língua falada na linguagem literária, algo que fugia do protocolar na época, a escrita no chinês clássico e a qual a maior parte da população não tinha acesso. Sendo assim, o fato dele pensar a literatura como instrumento de mudanças ia totalmente de encontro a essa limitação que persistia mesmo após a derrubada da Dinastia Qing e o estabelecimento da República, em 1911. A sensação era a de que reformar não foi o suficiente, era preciso mais e em alguns dos seus pares ele não encontrou esse mais que podemos chamar de revolução.
Antes de ler “Flores matinais colhidas ao entardecer”, escrito em 1926, peguei um conto do autor, “A madman’s diary“, de 1911. No texto, em forma de diário, logo após ler os textos clássicos de Confúcio, o narrador-personagem acredita estar envolto em uma conspiração para comê-lo, uma metáfora que usa o canibalismo para traçar uma crítica ao velho que se recusa a abrir espaço para o novo.
O mesmo embate é perpetuado ao longo dos 12 textos que compõe as memórias do autor, que usando doses cavalares de sarcasmo com pitadas de rancor rebate, questiona e ataca normas, instituições e inimigos pessoais.
“Quando meus escritos são publicados, raramente agradam a certas pessoas, mas com frequência tocam em suas feridas.”P.45
Os textos retomam sua infância e juventude, e trazem inúmeras referências à obras que faziam parte da formação dos estudantes chineses, além de fatos históricos, aspectos culturais e folclóricos que sem as notas de rodapé explicativas eu certamente perderia. As notas, por sinal, em conjunto com a apresentação e a introdução fazem merecem destaque por seu trabalho primoroso. Isso sem falarmos da tradução, por Yu Pin Fang. Lu Xun é muito sarcástico, o que eu amei, e conseguir passar esses tons e nuances foi essencial para que eu alcançasse toda a potência de escrita dele. Sem todo esse suporte talvez não fosse possível captar todas as indiretas, ironias e reflexões dessa figura importantíssima na formação da China moderna.
Eu realmente senti que o livro nos coloca junto ao autor numa tentativa de compreender, ou ao menos vislumbrar, o que foi o período final da dinastia Qing e início da República ao mesmo tempo em que o humaniza, mostra suas dores, frustrações, motivações. Há um tom de resignação, mas também de cansaço.
Chove no Rio de Janeiro hoje e usando as palavras de Lu Xun, “Já é hora de encerrar este texto. Com isso, eu o concluo.”
Amei o texto . Parabéns Bia 👏👏👏
Muito obrigada, Aline!