Ficção, memória e resgate em “Sem Despedidas”, de Han Kang

Han Kang teve um sonho.

Em um campo coberto de neve, ela andava em meio a troncos de árvores nus que funcionavam como lápides para túmulos que a água do mar ameaçava inundar.

É assim que começa Sem despedidas, traduzido por Natália T. M. Okabayashi, com a protagonista, a escritora Kyung-ha, tendo esse mesmo sonho. Talvez por isso o romance aos poucos assuma uma aura onírica na qual sonho e realidade se misturam.

Na narrativa, Kyung-ha vinha sendo assombrada por pesadelos intensos e violentos desde que começara a escrever sobre um massacre ocorrido “naquela cidade”, na Coreia do Sul.

Han Kang também havia escrito sobre um massacre anteriormente. Em Atos Humanos, traduzido para o português por Ji Yun Kim, ela elabora uma ficção sobre o Massacre de Gwangju, ocorrido em 1980 sob a ditadura militar do general Chun Doo-hwan. Na ocasião, que segue sem julgamento, o Exército sufocou violentamente um protesto civil, formado em sua maioria por estudantes. Milhares de pessoas foram alvejadas e mortas à luz do dia, centros de tortura foram criados e corpos jogados em valas comuns. Gwangju é a cidade natal de Han Kang.

Os pesadelos que perseguem Kyung-ha no início de Sem despedidas carregam muito do que ocorreu em Gwangju:

“No inverno de 2012, passei a ter pesadelos a partir do momento em que li o material para escrever o livro. No começo eram sonhos repletos de violência. Eu tentava fugir da tropa de paraquedistas militares quando era atingida no ombro com um porrete e caía. Agora não consigo me lembrar do rosto do soldado que chuta meu flanco no chão e, com suas botas, me vira. Só resta o arrepio sentido quando ele toma a baioneta com a ambas as mãos e apunhala meu peito com toda a força.”

Vivendo em constante estado de vigília, com as fronteiras entre pesadelo e realidade embaçadas, Kyung-ha recebe uma mensagem de Inseon, uma amiga de longa data. Ela estava hospitalizada após um grave acidente doméstico e pede que Kyung-ha vá até a Ilha de Jeju alimentar seu pássaro de estimação que havia ficado para trás e sozinho quando Inseon foi encontrada desacordada após cortar os dedos da mão em uma serra elétrica na marcenaria que mantinha em casa.

Vestindo um casaco acolchoado e com um cartão de crédito no bolso, Kyung-ha atende ao pedido e pega o primeiro avião, porém, ao chegar, se depara com uma nevasca que cobre a Ilha de um branco denso e espesso. Branco, retomando a ideia de vida e morte que Han Kang trabalha de forma tão poética em O livro branco, que também tem tradução de Natália T.M. Okabayashi.

Esse branco, para além da associação com o luto pelo lado metafórico, dificulta de forma prática a jornada de Kyung-ha, já que a casa de Inseon fica em uma região mais isolada da Ilha.

Enfrentando ventos cortantes e ao ver o branco tornar-se breu com o passar das horas, Kyung-ha começa a duvidar do sucesso da empreitada e até de sua própria sobrevivência quando uma luz longínqua parece ser a salvação. Em meio à neve e a escuridão, a oficina de Inseon emerge. Porém, esse é apenas o começo de uma viagem que mergulha fundo nos traumas da família da amiga, assim como nos traumas de toda uma nação.

Nesse ponto da narrativa, Kyung-ha tem acesso à história da família de Inseon, através de memórias, cartas, depoimentos, fotos, de toda uma documentação reunida e guardada por décadas, e que revela as marcas deixadas pelo genocídio que ficou conhecido como o Massacre de Jeju.

Ocorrido entre os anos de 1948 e 1949, após a rendição do Japão, que ocupava a Coreia desde 1910, dizimou cerca de 30 mil pessoas, em torno de 10% da população local, após o governo, apoiado pelos Estados Unidos, enviar uma milícia armada para abafar uma manifestação contra a divisão da Coreia e contra a brutalidade desse governo central, formado após o fim da Segunda Guerra Mundial. A ação virou uma verdadeira caça a supostos comunistas enquanto homens, mulheres e crianças eram perseguidos, torturados e suas casas queimadas.

A essa altura do romance, o onírico já dominou a narrativa, que ganha camadas e mais camadas conforme Kyung-ha cava as memórias da família de Inseon e da comunidade local. Em uma espécie de sonho dentro do sonho, como naquele filme do Christopher Nolan, A Origem, mas com o jeito Han Kang de escrever: sensível, físico e repleto de silêncios.

A escritora sul-coreana Han Kang – foto Paik Dahuim

Há um ritmo, uma cadência, que espelha muito o próprio jeito da autora de falar. Ao assistir a suas entrevistas, é possível notar que as pausas, as reflexões chegam a hipnotizar, algo que as traduções buscam manter nos textos.

“Fechos os olhos.

A luz do corredor da sala de leitura está vívida, alongou-se cada vez mais pelas brechas das persianas da janela voltada para oeste, e finalmente alcançou meu rosto. Uma luz radiante como se tivesse a pretensão de volatizar instantaneamente o sangue que escorria sob os números que eu lera.”

O governo sul-coreano passou anos ocultando o Massacre, censurando quaisquer menções ao ocorrido em Jeju, que posteriormente ficou famosa pelas praias, pelas haenyeo (as “mulheres do mar”), e até como destino favorito para lua de mel.

Contudo, após anos de pressão, já nos anos 2000, o então presidente sul-coreano visitou a Ilha, pediu desculpas em nome do governo e iniciou uma espécie de “Comissão da Verdade” cujos trabalhos concentraram-se em escavar possíveis locais de ocultação dos restos mortais das vítimas. Han Kang, inclusive, aborda esse acontecimento em Sem Despedidas:

“Naquele outono, os corpos foram exumados.”

“Onde?”, perguntei.

“No aeroporto de Jeju”, respondeu Inseon baixando a voz. “Embaixo da pista de decolagem…”

À semelhança de Atos Humanos, em Sem Despedidas há esse trabalho de resgate e memória no qual Han Kang usa a escrita e a ficção para revolver a terra e honrar os mortos que o país teima em esconder. A Academia Sueca, ao conceder o prêmio Nobel à autora em 2024, inclusive, destacou “sua intensa prosa poética que confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana.”. Ou seja, é praticamente impossível não conectar ambas as histórias, interligadas pela violência do Estado e pelo risco de apagamento.

Assim como é impossível não lembrar dos nossos próprios mortos, da nossa própria história como nação. Antes de ler Han Kang e outras autoras sul-coreanas, como Bora Chung, Bae Suah e a coreana-americana Lee Min Jin, ao pensar em Coreia do Sul, vinha apenas a ideia de um país asiático, moderno, muito ligado à cultura pop, etc. Han Kang arranca essa venda e revela também uma nação repleta de fantasmas e que se assemelha a nós, aqui no Brasil. Compartilhamos a experiência do colonialismo, bem como ainda lidamos com os traumas de uma ditadura militar e com a tentativa recorrente de negação dessas violências.

Ao assumir essa posição de dar voz aos mortos, Han Kang também dá voz aos vivos, aos que ficaram, e isso transparece na reta final de Sem Despedidas quando sonho e realidade se tornam totalmente indistintos, assim como vida e morte. Isso acontece de tal forma que a busca pela distinção entre eles passa a não fazer qualquer sentido no romance. O ontem e o hoje, os sonhos e a realidade, os vivos e os mortos, por fim, juntos.

Nas Palavras da autora, ao final de Sem Despedidas, Han Kang expressa seu desejo de ter escrito sobre amor genuíno. Acredito que ela tenha alcançado esse objetivo, mesmo com toda a dor que chega a nos deixar sem palavras, afinal, que outro sentimento também nos tira as palavras? O amor. O amor pelos mortos, pelos vivos. O amor que se veste na profunda amizade entre Kyung-ha e Inseon.

Referências:

Atos Humanos, Han Kang. Tradução  Ji Yun Kim. Todavia, 2021;

O livro branco, Han Kang. Tradução Natália T. M. Okabayashi. Todavia, 2023;

Sem Despedidas, Han Kang. Tradução Natália T. M. Okabayashi. Todavia, 2025;

Entrevista da autora à Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/08/han-kang-fala-sobre-novo-livro-ataques-da-direita-na-coreia-e-nobel-de-literatura.shtml

Imagem de capa: Ilustração da capa do romance, por Marcelo Delamanha

Publicado por Bia Fonseca

Graduada em Letras-Inglês atuando na área de educação à distância e tradução. Especialista em Leitura e Produção textual com experiência na elaboração de conteúdo em português e inglês para redes sociais.

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