“As formas do mar – poesia chinesa contemporânea”.

As formas do mar – poesia chinesa contemporânea“. Org. Hu Xudong, Marcelo Lotufo; tradução Dora Ribeiro, Inez Zhou. Edições Jabuticaba, 2024

Antologia bilíngue, organizada por Hu Xudong e Marcelo Lotufo e publicada pela Edições Jabuticaba, é composta por 52 poemas, de 10 poetas chineses contemporâneos nascidos entre os anos de 1968 e 1993 nas mais diversas partes da China, sendo o poema mais antigo de 2003 e os mais recentes de 2018. A maioria reside e atua no país.

Nas palavras das tradutoras, Dora Ribeiro e Inez Zhou : “Vários poetas desta antologia combinam o estilo da poesia ou da prosa clássica ao contexto moderno e criam correspondências históricas, inclusive com citações diretas de imagens e sentimentos antigos. Aparecendo aqui a poesia da dinastia Tang como importante referência. Existe também neste grupo de poetas uma linha que poderíamos chamar de quase-surrealista. Utilizando recursos descritivos quase-digitais, nos traz a experiência da desordem que ronda um mundo aparentemente organizado e catalogado. Em todos estes poetas, o lirismo convive abertamente com a dureza da realidade, numa estranha e intensa relação de simbiose. O que faz com que a leitura destes textos seja prazerosa, surpreendente, fácil e complicada. Tudo ao mesmo tempo.”

Há um encontro de mundos, o milenar e tradicional, e o atual, tecnológico e experimental. Um recorte, naturalmente, diante de um país tão grande e complexo e que por esse motivo abre um leque quase que infinito de vivências e possibilidades. Nós, brasileiros, entendemos.

O mais interessante dessa antologia é que ela sai justamente do “esse o Ocidente vai gostar” e repensa até a ideia do que é contemporâneo em um país com uma história recente de intensas e rápidas mudanças como a China. Explico, uma grande parte da literatura chinesa traduzida para o português chegou até nós através das lentes do mundo anglófono. Ele foi durante muito tempo o filtro do que valia a pena trazer e muito do que chegou até hoje tem relação, por exemplo, com a experiência da Revolução Cultural, que ocorreu entre os anos 1966 e 1976. Muitos autores saíram da China e vivem há anos na Europa ou nos EUA, por exemplo. Escrevo isso sem juízo de valor, mas com a consciência de que essa não é a China contemporânea.

A China de hoje é completamente diferente, o que não desqualifica ou diminui a experiência de autores do século XX, mas a torna diferente de quem viveu a China dos últimos 20, 30 anos. Saber o que os chineses pensam hoje através da literatura não é tarefa fácil, principalmente quando falamos de tradução para o português. Por isso acho tão significativa a publicação dessa antologia, assim como da “Antologia sino-brasileira de contos”, que optou por trazer novas vozes.

E é isso que encontramos nessa reunião, um MAR de formas e cenários que segundo Marcelo Lotufo, um dos organizadores da obra, representa “um momento da cultura chinesa” e segundo as tradutoras, uma oportunidade de “olhar para a mente-mundo desses jovens chineses contemporâneos.”

Abaixo, reproduzo um dos meus poemas favoritos, de Han Bo, e que considero conversar bem com o que foi dito acima:

Moderna-genitalidade

Contemporaneidade: às vezes, ela

Habita o temporário. Modernidade

São os trilhos capturados

Pela linha de Greenwich, ansiosa,

A espuma do chá morde a taça. Às vezes,

Ela destrói a modernidade fabricada

Vive na contemporaneidade do

Pensamento de auto-imolação: fumaças pretas

Lançadas na direção da Rússia, não sabem como

Começar a destruição do moribundo progressista.

(Xangai, 03/07/2011)”

Publicado por Bia Fonseca

Graduada em Letras-Inglês atuando na área de educação à distância e tradução. Especialista em Leitura e Produção textual com experiência na elaboração de conteúdo em português e inglês para redes sociais.

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