“Greek Lessons”, Han Kang. Tradução para o inglês Deborah Smith e Emily Yae Won. Hamish Hamilton, 2023.
A professora e tradutora Ji Yun Kim estabelece alguns eixos para trabalhar as principais obras da agora Nobel de Literatura Kan Hang. São eles “Violência individual”, “Violência do governo” e “Linguagem e Imagem”.
“A Vegetariana” se enquadraria na “Violência individual”. A narrativa sendo muito focada nos indivíduos e na violência que eles perpetram e sofrem, no caso sofre Yeonghye, a protagonista sem voz própria assombrada por sonhos intranquilos e banhados em sangue que se recusa a comer carne e é violentada de diversas maneiras pelos homens ao seu redor. Mesmo que haja uma bagagem social e patriarcal por trás o individuo é o foco.
Já em “Atos Humanos” ela elabora uma ficção baseada em um evento da História da Coreia do Sul, o Massacre de Gwangju, em 1980, sob a ditadura militar do general Chun Doo-hwan. “We do not part”, que sai em 2025 em inglês já no início do ano e a princípio aqui no Brasil pela Todavia ainda sem data, também traz uma narrativa ficcional permeada pela violência estatal, o evento em questão é outro Massacre, da ilha de Jeju, em 1949. Há o trabalho de resgate, de memória, de revolver a terra e honrar os mortos. Não à toa a Academia Sueca ao conceder o prêmio Nobel destacou no trabalho da autora “sua intensa prosa poética que confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana”.
Indo para o campo da “Linguagem e Imagem”, temos “O livro branco”, minha primeira leitura de 2024, e no qual a autora explora o luto pela morte da irmã que ela nunca conheceu, da irmã que viveu por apenas algumas horas, e envolve um mergulho íntimo na cor branca, na verdade, em um tipo específico de branco que na língua coreana carrega a ideia de vida e morte. Enquanto “Atos Humanos” e “We do not part” revelam fantasmas da nação, “O livro branco” revela fantasmas da própria autora. É seu livro mais pessoal e poético.
E finalmente chegamos à “Greek Lessons” encerrando as leituras do ano por aqui e sobre a qual eu ainda não tinha elaborado nada em texto. Ainda não publicado no Brasil, é outro livro que se enquadra no que a Professora Ji Yun Kim classifica como “Linguagem e Imagem” dentro da produção da autora.
Nesse romance, que me passou uma vibe meio Raquel Cusk, mas muito mais profunda e abstrata, uma mulher que perdeu a voz encontra um homem que está perdendo a visão. Ela como aluna, ele como professor, em uma sala de aula de grego antigo em Seul.
A sala de aula como espaço no qual a maior parte da narrativa se desenrola é algo que me remeteu a obra da autora canadense. A personagem de “Esboço” é uma espectadora da vida alheia em uma sala de aula em Atenas. Ela observa os personagens que a cercam, assim como a protagonista de “Greek Lessons” observa a própria vida, mas aqui ela pouco reage diante de uma linguagem que ela não reconhece mais, por isso uma língua completamente diferente da língua materna na busca por retomar a própria voz.
É como se uma névoa cobrisse o mundo dessa mulher que parece recusar à linguagem tradicional como forma de comunicação. A língua como instrumento, como algo coerente, racional, e que não daria conta de tudo que ela sente, de tudo que ela quer dizer e de tudo que ela vinha vivendo após a morte da mãe e a perda da guarda do filho.
Do outro lado há um homem que desde criança tem problemas de visão e um diagnóstico de que por volta dos 40 anos, mais ou menos a idade dele no momento da narrativa, perderia por completo a visão. Esse homem que imigrou com a família ainda criança para a Alemanha e passou a vida dividido entre duas culturas, duas línguas, e que opta pela terra natal, pela língua materna, para viver esse ciclo.
Esses dois mundos se encontram no grego antigo e desse encontro nasce uma tensão física, palpável, dentro do silêncio da mulher que tanto chama a atenção do professor de grego.
É um livro absurdamente denso. Um mergulho profundo nas estruturas da língua e da linguagem.
Enquanto lia, lembrei da primeira vez que ouvi a autora falar e mesmo não entendendo um ai de coreano, fiquei hipnotizada pelo ritmo, pela cadência, e ela parece transmitir esse ritmo pros seus textos, algo que as traduções, a princípio, buscam manter.
“Around the period her child – the child she had borne eight years ago for whom she had now been deemed unfit to care – first learned to speak, she had dreamed of a single word in which all human language was encompassed. It was a nightmare so vivid as to leave her back drenched in sweat. One single word, bonded with a tremendous density and gravity. A language that would, the moment someone opened their mouth and pronounced it, explode and expand as all matter had at the universe’s beginning”.
(“Pela época em que seu filho – o filho que ela havia dado à luz há oito anos e que agora era considerada incapaz de cuidar – aprendeu a falar, ela sonhou com uma única palavra que englobava toda a linguagem humana. Foi um pesadelo tão vívido que deixou suas costas encharcadas de suor. Uma única palavra, ligada com uma tremenda densidade e gravidade. Uma língua que, no momento em que alguém abrisse a boca e a pronunciasse, explodiria e se expandiria como toda a matéria no início do universo.”. (tradução livre))
Abrir a boca e imaginar o peso do Big Bang foi algo instintivo durante a leitura desse trecho.
Há algo de experiência física em ler Han Kang, na forma como ela explora o corpo em toda sua fragilidade e possibilidade. E mesmo que eu tenha me conectado menos a essa narrativa, “O livro branco” me pegou muito mais, talvez até pela intimidade que o texto conclama, “Greek Lessons” vale a leitura pela experimentação e pelo poder da autora em criar passagens impactantes física e mentalmente.
Referências:
KANG, Han. “A vegetariana”. Tradução Jae Hyung Woo. Todavia, 2018;
KANG, Han “Atos Humanos”. Tradução Ji Yun Kim. Todavia, 2021;
KANG, Han. “O livro branco”. Tradução Natália T. M. Okabayashi. Todavia, 2024;
KANG, Han. “Greek Lessons”. Tradução para o inglês Deborah Smith e Emily Yae Won. Hamish Hamilton, 2023.
KIM, Ji Yun. Curso de extensão “O Ritmo e a Tradução de Atos Humanos de Han Kang”. USP, 2022.
