“Açougueira”, de Marina Monteiro

Açougueira, de Marina Monteiro. Claraboia Editora, 2024.

Uma mulher está sentada diante de um “doutor” no que aparentemente é um júri. Ela se defende da acusação de ter matado o marido, mas como a própria diz: “a história mora nos detalhes. Não adianta chegar logo no final. Eu sei, pro senhor e pra todo mundo, o ponto final que interessa. Lá vive tudo que importa. Não sinto assim. É preciso caminhar o caminho.”

E assim, ela narra sua vida e como tentando não repetir o destino “da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe”, ela também acaba vítima da praticamente inescapável máquina de moer mulheres que é a nossa sociedade.

“Depois soube, foram pro bar, me negociando. Queria saber meu preço, mas os dois se retiraram porque era assunto deles. Mulher não precisa saber quanto vale.”

Porém, ela se incomoda, se debate e abre um novo caminho na ponta da faca; rasga um boi inteiro e no rito do sacrifico e do sangue ela revive e incomoda.

Um incômodo que o coro dos vizinhos deixa bem claro. Um coro de ódio, ignorância e preconceito.

“Moça não devia provocar assim. Rapaz é diferente. O senhor sabe bem. A natureza chama. Desígnio divino. Mas cabe à moça se manter dentro do esperado, sabe?”

“Ela não era mulher pra ele, de tão bruta era seca, tinha pedra no lugar do útero…”

“Grande demais pruma mulher. Bruta demais pruma mulher. Decidida demais pruma mulher Seca, fechada, pesada, rocha.”

São vozes que, ao contrário da narradora, chegam até nós com o filtro do registro do testemunho no que parece um processo judicial: “[mulher, 36 anos, levanta-se], “[homem, 26 anos, levanta-se, caminha pelo entorno da salinha]”, “[mulher, 60 anos, sentada, língua estala na boca]”

Vozes que criam uma polifonia no texto e são um excelente recurso para trazer outros pontos de vista e para que nós, leitores, possamos ver como a personagem é percebia pelos seus pares, pela população local. Uma forma que Stephen King usa em Carrie e que me veio à cabeça enquanto lia o texto da Marina Monteiro. Para além de trazer esses outros personagens e visões, faz com que nos coloquemos ainda mais no lugar da narradora, no lugar de quem sofre com os olhares e julgamentos. Desperta nossa raiva, nossa indignação, nosso senso de justiça.

Ainda fazendo referência à Carrie, há em Açougueira, a voz da mãe. Aqui, a mãe que sofreu calada em vida para na morte transformar as palavras que de tão guardadas ficaram duras e secas em um mar revolto. Uma voz que assombra a narradora para que não lhe repetisse os passos, não lhe repetisse o destino, mas acaba ficando por nossa conta se o assombro é um toque fantástico, no que prefiro acreditar que sim.

E já que enveredei pelo caminho das referências, ao ver uma mulher julgada pelo assassinato do marido, como não lembrar do assombroso Anatomia de uma queda, dirigido por Justine Triet e vencedor da Palma de Ouro de 2023? Principalmente por no livro da Marina, assim no filme, o fato da personagem ter matado ou não sair do primeiro plano diante de tudo que é desenterrado no processo, as relações reveladas, a violência (aqui, física e sexual, inclusive), toda a complexidade da vida, do abismo que ela pode ser. Da mesma forma que escritora e diretora traçam em suas narrativas uma investigação de como mulheres que não agem conforme a “moral e os bons costumes” são tratadas e julgadas na nossa sociedade patriarcal.

É como se Marina Monteiro, Justine Triet e Stephen King sentassem-se em uma mesa e nascesse Açougueira. No fim, a protagonista não queima a cidade inteira, mas bem que poderia.

Publicado por Bia Fonseca

Graduada em Letras-Inglês atuando na área de educação à distância e tradução. Especialista em Leitura e Produção textual com experiência na elaboração de conteúdo em português e inglês para redes sociais.

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