“The Memory Police”, OGAWA, Yoko. Tradução Stephen Snyer. Vintage, 2020.
“The Memory Police” foi um livro comprado pela capa, pois foi esse trabalho incrível que chamou minha atenção e ele só foi ficando melhor e melhor conforme a história avançava, a história de uma ilha sem nome na qual tudo está fadado a desaparecer. Contudo, os sumiços não começam como algo físico, as coisas, na verdade, desaparecem inicialmente da memória das pessoas, de seus corações, elas simplesmente param de fazer sentido e é aí que a Polícia da Memória entra: fazer cumprir os desaparecimentos, torná-los físicos, não deixar qualquer vestígio do que não existe mais. O caráter distópico da narrativa reside nesse Estado policial que anula o que é considerado fora do padrão, que persegue aqueles que não esquecem, pois eles existem e precisam se esconder da Polícia da Memória, pois uma vez capturados, eles também estão fadados a desaparecer.
No entanto, o que antes acontecia aqui e ali foi se tornando uma verdadeira epidemia e as coisas começaram a efetivamente se complicar mesmo diante da resignação dos moradores que a cada desaparecimento repetiam o processo de se livrarem do que não mais existe em busca de se adaptarem à nova realidade.
“I mean, things are disappearing more quickly than they are being created, right?” p.52
Nesse contexto de intensificação dos desaparecimentos e da consequente perseguição pela Polícia da Memória é que a narradora, uma escritora sem nome como a ilha, busca uma forma de ajudar seu editor, que assim como sua mãe, é uma das pessoas capazes de lembrar. O livro, inclusive, começa com uma lembrança da infância da narradora, na qual ela contempla e ouve histórias acerca de objetos que não fazem qualquer sentido para ela, nem despertam sentimentos ou emoções, mas que são relíquias para sua mãe, que os mantém em segredo até o dia no qual ela é levada pela Polícia da Memória e quando as notícias chegam, eram apenas para relatar seu falecimento.
Mas para além do temor da Polícia da Memória, uma série de conflitos internos e ao mesmo tempo coletivos se instala diante da possibilidade da não-existência, avançando também pelo romance que acompanhamos em paralelo, escrito pela narradora, e que aos poucos vai convergindo para a narração principal. De que somos feitos? O quão importantes são as memórias na formação de quem somos? E Yoko Ogawa leva essa metáfora ao limite, o que me fez lembrar em alguns pontos a “A Vegetariana”, da escritora coreana Han Kang e já traduzida no Brasil por Jae Hyung Woo.
“Maybe there’s a place out there where people whose hearts aren’t empty can go on living.” p.117
A cada desaparecimento um novo buraco se abre e fica a pergunta: Até que ponto conseguimos seguir existindo com tantas ausências preenchendo nossa vida e nossos corações de vazio?
Aê…casinha nova e linda. Eu, a atrasada, mas nunca eh tarde! 🌻🌻🌻 Parabéns!
Obrigada! ❤